Se revisitarmos as diversas Constituições brasileiras, de
1824 a atual, constataremos quão belas foram na forma e no conteúdo, mas de
pouca aplicação ao seu principal interessado: o povo. Na América Latina, a Constituição
representa, há anos, mais do que a garantia de direitos e deveres, sem dúvida
importante, mas a manutenção de certa “ordem”, de grande interesse de uma
minoria dominante. Serviu bem a esse propósito, por vezes interrompido pela
ascensão de propostas “esquerdizantes” ou “populistas”. Fernando Lugo cai, sem
a ação brutal de Pinochets e Castelos. Para muitos, um exemplo de novos tempos,
de uma nova democracia. Ao povo paraguaio, minhas condolências.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Folha e a ditadura
Carta que enviei hoje ao Painel do Leitor da Folha de S. Paulo.
Um estudante alienígena que se baseasse na Folha para conhecer a História brasileira de 1964 a 1985 chegaria à conclusão de que a “revolução de 64” salvou o país de uma esquerda leviana. As informações que o jornal trouxe sobre os justiçamentos dos grupos guerrilheiros de esquerda (Ilustríssima – Traição, vacilação ou discordância, 17/06/2012) são importantes para a historiografia do país, não fossem utilizadas para mistificar a figura da oposição armada. Sob o véu da “pluralidade”, a tentativa recorrente do jornal de equiparar os excessos dos militares às ações da esquerda armada parece preparar os leitores para alguma surpresa vinda da Comissão da Verdade. É conhecida a suspeita de que o jornal teria sido um dos apoiadores civis da Operação Bandeirante (Oban), ao ceder carros de entrega para a utilização dos torturadores. Mais alguns editoriais e especiais sobre a “ditabranda”, nosso estudante alienígena associará a Oban a um mal necessário para o país, o que justificaria, inclusive, a ajuda do jornal aos militares.
terça-feira, 13 de março de 2012
Resgatando nossa vocação agrícola
Após
alvoroço dos industriais, a imprensa começou a dar maior importância para a
questão da desindustrialização no Brasil. Segundo a imprensa, o governo e a
burguesia industrial paulista, existe uma miríade de causas para o fenômeno,
como a concorrência chinesa, o “custo Brasil”, a pouca competitividade de
nossos produtores. O vilão principal, como todos concordam, é o câmbio
valorizado, que torna os produtos nacionais fracamente competitivos em relação
aos importados. Um rico vocabulário econômico foi forjado, com expressões como
“guerra cambial” e “tsunami de dólares”, que, se corretos na análise, são pouco
eficazes na solução do problema. O governo possui diversas ferramentas para
limitar a entrada de dólares, o que diminuiria a pressão sobre o câmbio, ou
para controlar as importações. Embora a associação câmbio-industrialização não
deva ser desprezada, trataremos dela subsidiariamente. Nosso objetivo é
relacionar o problema da desindustrialização ao surto agrícola dos últimos dez anos,
impulsionado pelos altos preços das commodities, e, sobretudo, à crescente
influência dos interesses da oligarquia agrária no Planalto.
Não
é o caso de ignorar a importância da agricultura para o país. É estreita a
relação das modernas produções de soja com a indústria de insumos,
fertilizantes, maquinário agrícola. Essa contribuição industrial, contudo, não
é significativa a ponto de justificar o descompasso da participação agrícola na
economia, que além de drenar recursos financeiros, direciona importantes
políticas governamentais para esse fim. A votação da nova Legislação Ambiental
é um exemplo. Lamentavelmente, rifa-se um imenso potencial econômico e
ecológico para favorecer o lobby da oligarquia agropecuária.
Ainda
que fujamos um pouco do assunto da desindustrialização, devem-se ressaltar
algumas consequências sociais da concentração do latifúndio da soja e do gado.
A busca de uma solução para o problema do campo está sendo negligenciada.
Enquanto a França busca uma política — diga-se de passagem, legítima— de
fortalecimento do pequeno e médio agricultor, que se coaduna com um projeto de
descentralização populacional dos centros metropolitanos, o Brasil praticamente
enterrou o débil projeto de reforma agrária, encerrando os assentamentos e permitindo
a diminuição da agricultura familiar, importantíssima para o abastecimento das
cidades, mas incapaz de competir sozinha com a grande propriedade. Há ainda a
questão das lutas trabalhistas do trabalhador do campo, raramente sindicalizado
e sujeito à ordem patriarcal, e o rastro de sangue da voracidade da expansão da
fronteira agropecuária, que atinge pequenos proprietários, comunidades
indígenas e seringueiros.
O
que é crítico no país é que, tal qual a oligarquia cafeeira da República Velha,
surge poderosa a oligarquia do gado e da soja. A influência que esse grupo
possui na mídia e no governo explica as inúmeras menções honrosas à moderna
agropecuária, sem ser feito correlação com o processo de desindustrialização. O
problema do campo é escondido, e os grupos de trabalhadores rurais, como os
sem-terras, estigmatizados. É muito questionável, entretanto, uma modernidade
que se ampara na derrubada de matas, na depredação do solo e na violência
praticada por capangas ou, mais frequentemente, pelas forças policiais do Estado.
![]() |
| MST Sebastião Salgado |
Infelizmente,
economista não vê povo, não vê fome, não vê miséria nem injustiça. Vê país
grande, Brasil potência, sexta economia mundial. Realmente, não é possível deixar
de verificar os aspectos benéficos da agricultura nos agregados macroeconômicos.
Mas, mesmo que a economia fosse algo restrito a eles, estaríamos em uma
situação de aparente conforto. Desde inícios do ano 2000, as exportações de
minério de ferro e de produtos agrícolas, notadamente a soja, garantiram
superávits na balança comercial, que em consequência diminuíram, relativamente,
nossa dependência externa e permitiram a acumulação de divisas. O vício do
conforto com frequência nos impede de tomar medidas racionais. É a própria
exportação exuberante de soja, carne e minério de ferro, além da entrada de
capitais especulativos, que sobrevaloriza o câmbio. O problema é que,
naturalmente, um câmbio valorizado tenderia a diminuir as exportações e,
consequentemente, encontrar um novo equilíbrio, mais desvalorizado. A farra das
commodities, contudo, age, juntamente com o tsunami de capitais, na
hipervalorização do câmbio. Mecanismos do governo que busquem a desvalorização
da moeda nacional devem se cautelosos, pois isso representaria um incentivo
ainda maior às inversões na agricultura. Independentemente do câmbio, tem-se
que desestimular o investimento no agribusiness.
Apesar
de o equilíbrio no Balanço de Pagamentos ser algo desejável, o custo é alto. Essas benesses da
agricultura têm, no entanto, direcionado as escolhas do governo. Em detrimento
de uma política industrializante, as decisões tomadas fortalecem a agricultura
e a elite agrária. Nossa “vocação agrícola”, recentemente desenterrada, levou o
governo aos principais fóruns internacionais para defender a abertura dos
mercados agrícolas europeu e americano. Em troca dessa vantagem, sem dúvida
importante para os países agrícolas de baixo desenvolvimento, oferecemos nosso
mercado interno para os manufaturados estrangeiros. A classe média, já
deslumbrada com carros e equipamentos importados, explodiria em êxtase. Felizmente ,
para nossa indústria, os europeus não abrem mão de sua política agrícola, que
consideram importante para a segurança alimentar e desenvolvimento social.
A
dicotomia industrialização-agricultura não é recente. A Revolução de 1930, se
não trouxe transformações sociais, teve um impacto fulminante nesse ponto, já
que representou o abandono da “vocação agrária” por uma política
industrializante. O governo, naquele momento, optou por uma política econômica
que favorecesse o país como um todo, finalizando um período em que os
interesses da elite oligárquica prevaleciam. Para se ter uma ideia, o peso do
café nas exportações caiu para 32%, em 1940, ante 70%, em 1930.
Ainda
que haja inúmeras diferenças entre os cafezais de outrora e o modo de produção
utilizado atualmente, observamos a volta triunfante da oligarquia rural nas
esferas de poder e na imprensa. Os impactos da agropecuária no processo de desindustrialização
estão sendo, infelizmente, negligenciados, haja vista o silêncio dos meios de
comunicação e dos economistas do governo. Se o sério problema da
desindustrialização, um atraso no desenvolvimento do país, conta com outros
aspectos relevantes como a China e a entrada de dólares, o incentivo dado à
expansão agrícola tem participação importante, com o agravante de comprometer o
interesse coletivo em áreas estratégicas (social, política, ambiental), para favorecer interesses eminentemente privados e oligárquicos.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Felizes Juntos - Wong Kar-Wai
Não
posso reclamar dos últimos filmes que tenho assistido. As exceções não são
suficientes para macular o repertório. Confesso que saber selecionar também é
uma arte, modéstia a parte.
Eis
que, última sexta-feira, a patroa chega em casa com pouco mais de 10 títulos de
uma locadora que frequentamos. Seu sorrisinho maroto não evitou o meu “Jesus
Cristo, sua louca”. Acho que uma das coisas mais sábias, dentro do processo de
compreensão do universo feminino, é não tentar compreender todo o universo feminino. Os efeitos colaterais são maiores do que
os benefícios, acredite. Pedi para ver o acervo. Realmente, a pródiga seleção
era além de animadora. Ainda que metade dos filmes jogasse na retranca
(Bergman, Fassbinder, Antonioni, Tarkovski, talvez Lynch), havia algumas
escolhas mais arriscadas.
Começamos,
na mesma noite, por Felizes Juntos, do Wong Kar-Wai, uma indicação do rapaz da
locadora. Apesar de já conhecer o diretor, por conta de seu filme “2046”, desconfiei.
Nunca aceite uma indicação do cara da locadora, erro clássico, mirim. Às vezes, felizmente, nos enganamos: grande filme! Pra não contar a história toda, o filme aborda a relação
conflituosa de um casal homossexual de chineses em Buenos Aires. Ressalvando a
representação um pouco estereotipada dos portenhos (ninguém é perfeito), o
filme dá show de sensibilidade e beleza. O zelo fotográfico é quase irritante
e, entre tangos e milongas, duas composições do Zappa, a magistral “Chunga’s
Revenge” e “I have been in you”. Desaconselhável a homófobos, declarados ou
enrustidos.
domingo, 29 de janeiro de 2012
O negro e o preconceito
“But when you have to wait 30 years to get one
piece played —what do you think happens to a composer who is sincere and loves
to write and has to wait 30 years to have someone play a piece of his music. (…)
Had I been born in a different country or had I been born white, I am sure I
would have expressed my ideas long ago.”
Charles Mingus, sobre a música e poesia The
Chill of Death (Let my children hear music)
Impossível ler essa forte declaração
do Mingus e não fazer uma analogia com a crítica situação do preconceito de cor
no Brasil. Há diferenças marcantes em relação ao preconceito estadunidense,
principalmente na maneira como ocorreu todo o processo de libertação dos
escravos e a posterior garantia dos direitos civis. O fim da escravidão, nos
EUA, ocorreu após uma guerra fratricida que dizimou boa parte de sua população
e embora existissem valores morais contra prática degradante, os motivos
econômicos e políticos foram muito mais significativos. No Brasil, a despeito
das lutas quilombolas e de toda sorte de violência, a libertação foi relativamente
pacífica. Tanto lá como cá, a libertação não significou inclusão e muito menos
o fim do preconceito. Mas, neste ponto, talvez encontremos um aspecto
significativo que diferencie o preconceito no Brasil e nos EUA.
No fim do século XIX e início do
XX, as teorias racistas, supostamente científicas, estavam em voga em todo o
mundo. No Brasil, a elite associava a imigração, não apenas a uma
necessidade premente de mão de obra para as lavouras de café, mas, sobretudo,
à promoção do embranquecimento da população, medida considerada condicionante
para o progresso do país. Alijado dos melhores empregos e carente de
condições materiais para o desenvolvimento, o negro vai ser
significativamente marginalizado. Foi emblemática a discriminação feita nos clubes de
futebol, recém-formados, os quais impediam a participação do contingente negro
em seus quadros. O tratamento dado pelo próprio governo foi, contudo, muito
mais dramático, como o lamentável desfecho do episódio dos marinheiros negros
contra os maus-tratos da oficialidade branca, na Revolta da Chibata.
O governo Vargas (1930-1945) vai
ser importante para uma relativa mudança na análise da sociedade brasileira. As
feições corporativistas que adquire o Estado brasileiro, influenciado pelos
regimes fascistas europeus, serão evidentes nas áreas políticas e sociais, ao
buscarem eliminar diversas formas de conflito no seio da sociedade. Além de
abolir os partidos políticos, fonte de embate no campo político, a relação
patrão-empregado ficará a cargo do governo, responsável tanto pelo estabelecimento
do salário mínimo (que na prática agradou os empresários) como pela legislação
trabalhista. O sindicalista “pelego” teve uma função importante, não mais como
interlocutor do trabalhador, mas realizando função equivalente ao que o nome “pelego”
sugere nas relações entre sela e cavalo.
É no campo cultural do Governo Vargas
que nossa argumentação busca suas bases. Apoiados pelo governo, no bojo do
movimento modernista, intelectuais e artistas vão reconstruir o ideário da
nacionalidade brasileira. Leituras originais foram feitas da história do país,
mas principalmente da formação do povo brasileiro. A miscigenação, outrora
negativa, passa a ser supervalorizada, como uma característica única e
extremamente vantajosa do povo autóctone. Ser mestiço deixa de ser
negativo, mas algo a ser comemorado. O negro, nessa história, participa junto
com as outras matrizes, a portuguesa e a indígena, formando uma cultura
miscigenada, que não pertenceria a nenhuma matriz individualmente, mas a uma combinação de todas.
Gilberto Freyre, o principal intérprete desta corrente, resgatou a cultura
negra e as relações entre sinhô e escravo, no clássico Casa-Grande & Senzala. Sem descurar completamente da violência que
existia nesse relacionamento, propôs que a sociedade escravocrata dos engenhos
pernambucanos possuía contrapontos em relação à equivalente das plantações de
algodão dos EUA. Aqui, devido principalmente à ausência de veleidades de raça e
à miscibilidade do português, haveria uma proximidade maior entre casa-grande e
senzala, responsável, segundo ele, pela aceitação do negro no período pós-escravocrata.
Estava pronta a ideia de democracia racial, implícita em sua obra.
A ilusão de que o negro
brasileiro estava livre do preconceito teve efeitos perversos. Tal mito foi
responsável por manter o negro marginalizado, com poucas condições de reverter
seu quadro socioeconômico. Além de absolver o Estado e a elite
de qualquer responsabilização, a ideia de uma sociedade miscigenada e sem
preconceitos deslegitimou qualquer tentativa de luta pelos direitos civis e
sociais, cuja garantia lhes era, constantemente, solapada. O preconceito de cor
permanece, no Brasil, forte, mas, diferentemente do que ocorre nos EUA, é amiúde velado. Qualquer indicador social (educação,
população carcerária, mortos pela polícia, população miserável, salário)
escancara, entretanto, a tamanha opressão a que está sujeito o negro;
injustiças que não cessarão sem medidas contundentes.
Ainda assim, muitos insistem que
não há preconceito no Brasil, preferindo perpetuar o mito freyriano. O efeito
nefasto dessa afirmação, que insinua haver equidade de condições entre branco e
negro, algo em si preconceituoso, é a manutenção do status quo na sociedade brasileira, tão caro para alguns. Em vez de
encarar que vivemos em uma sociedade extremamente desigual e preconceituosa, convenientemente,
ignoramos a realidade. Partindo da premissa da democracia racial ou mesmo de outras falácias, medidas
afirmativas e urgentes seriam tentativas de dividir o Brasil em raças. O
preconceito, mascarado, fortalece-se, corroendo as poucas possibilidades de
mobilidade social do negro.
Charles Mingus disse que talvez
tivesse sorte diferente em outro país. Não no Brasil.
Dedicado à Nazareth Fonseca.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Pinheirinho e a luta pela terra
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foto: Roosevelt Cassio - Reuters
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foto: Fernando Donasci - Folhapres
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foto: Roosevelt Cassio - Reuters
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A análise socioeconômica seria suficiente para explicar o drama dos moradores do Pinheirinho e o tamanho de sua luta. Ela é, contudo, incompleta. Isso porque, a despeito da intransigência do prefeito Eduardo Cury e da justiça estadual (juíza Márcia Loureiro), que insistiram na solução policial, houve disposição do governo federal na regularização do terreno, cujo primeiro passo seria o cadastramento da Ocupação, pela prefeitura, no projeto Cidade Legal. As eleições municipais que ocorrerão no final deste ano tiveram um peso significativo, já que os partidos políticos do governo federal e municipal disputam a prefeitura da cidade. O interesse político na ação do prefeito Eduardo Cury (PSDB), explica a solução policial, atropelando a orientação da justiça federal e a intenção do governo federal de solucionar o problema de moradia no local.
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Charge do cartunista Latuff representando o prefeito Cury, o governador Alckmin,
o comandante da PM e a juíza estadual Márcia Loureiro |
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Papus desvairados
Outro dia, discuti seriamente com um amigo sobre “temas variados da política brasileira”. Horas de conversa madrugada adentro, a amizade era desafiada pelo poder de fogo das ironias, mais amargas a cada trago. Enquanto incorporávamos a cachacinha ao nosso cardápio etílico, insistíamos em interpretações distintas da nossa sociedade e em como mudá-la. A conversa foi ótima, do contrário não teríamos sido interrompidos apenas pela insistência da alvorada. Nosso embate noturno, quase uma disputa de cães famintos, fez-me refletir, contudo, sobre os motivos para tamanha passionalidade. Com mais sobriedade, percebi que algumas convicções dificilmente mudam em uma discussão, favorecendo a intransigência sobre a racionalidade. Ainda que possa parecer um pouco óbvio, ficou clara a relação que essa passionalidade discursiva possui com o posicionamento dos interlocutores dentro da clássica divisão ideológica direita e esquerda, controversa para alguns, mas sem dúvida largamente utilizada, inclusive pelos ébrios de que me ocupei no início do parágrafo.
Ainda que seja uma rápida e superficial definição, pode-se dizer que o pensamento esquerdista, independentemente das várias correntes que possui, leva em conta, acima de tudo, a noção de justiça social. Onde ela é deficitária, prevalece-se a necessidade de mudança, de transformação da sociedade. De maneira análoga, a direita, mesmo admitindo muitas vezes a injustiça e a desigualdade, recusa as soluções que proponham uma mudança rápida, preferindo que os acontecimentos sigam um curso próprio, além de defenderem a meritocracia e a mínima intervenção estatal. Direitistas e esquerdistas, quando têm confrontadas as suas noções de justiça, amiúde assumem uma posição extremamente defensiva, com raros acenos à convergência de seus pontos de vista. A racionalidade, embora possível, ocorre somente quando tais campos são respeitados ou, no mínimo, tratados com cautela.
Tentando ampliar um pouco o alcance da simplificação proposta, assevero que a passionalidade durante uma argumentação pode apresentar-se em diferentes posições dos interlocutores no amplo espectro ideológico. Apesar de ter utilizado a dicotomia direita e esquerda, a insanidade discursiva não precisa ocorrer entre xenófobos neonazistas e comunistas revolucionários. Na própria esquerda, por exemplo, é possível encontrar divergências que fugiram do alcance de um debate convergente (vide, por exemplo, o embate entre os comunistas e os social-democratas, na Alemanha, a partir de 1918, que inclusive facilitará o fortalecimento do Nazismo, 15 anos depois). Embora haja controvérsias sobre a identificação política (como diz um amigo, existe muito liberal fantasiado de bolchevique), conversas excessivamente “calorosas” geralmente representam uma distância no espectro político.
Há, entretanto, outros vários fatores responsáveis pelo andamento de uma discussão, e cada um deles mereceria uma discussão à parte. Como desejo enfatizar a influência ideológica, apenas menciono especificidades como a personalidade, o conhecimento que cada parte possui no assunto, a capacidade de persuasão e de argumentação e a proximidade com o tema tratado (neste caso, a proximidade pode ser socioeconômica, política ou sentimental). O último caso é interessante por diversos motivos e sua relevância na passionalidade pode ser descrita de inúmeras formas. Por exemplo, os moradores da Rocinha possivelmente possuem opinião distinta dos moradores da zona sul carioca em relação às aclamadas UPPs. Da mesma forma, as evasivas resoluções da ONU, tomadas em Genebra, estão longe demais da realidade de sofrimento dos guetos palestinos.
O meu objetivo não foi o de anular a passionalidade, o que, aliás, seria praticamente contraproducente, senão falso. Há horas em que a indignação faz-se necessária, e meias palavras não servem. Mas entender a passionalidade pode desencadear conversas mais interessantes ou, ao menos, evitar de uma vez o confronto e falar logo de futebol ou outra banalidade. O exercício psicanalítico de entender o outro pode, ao limitar em certos casos a veemência, preservar o bom relacionamento entre as partes, muitas vezes mais importante do que a própria discussão.
sábado, 29 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Uma abordagem histórica do filme O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman
No último final de semana, tive a alegria de encontrar nas prateleiras da locadora que frequento um recente relançamento em DVD: o esquecido “O ovo da serpente” (1977), de Ingmar Bergman. Como usual nos filmes desse grande diretor sueco, a abordagem psicológica é intensa. Entretanto, o filme vai além de valorizar os conflitos individuais (como veremos subsidiariamente), analisando principalmente os transtornos coletivos da sociedade alemã do pós-Primeira Guerra, os quais, como sugere o título, resultarão na ascensão do nazismo. Há, dessa forma, além de uma leitura da sociedade alemã da República de Weimar, uma forte contextualização histórica do enredo, aspecto que particulariza o filme no acervo berguiano.
Logo no início do filme já é possível perceber qual será a linha mestra do diretor em sua busca interpretativa. A estória se passa em 1923, período em que a crise econômica atingiu a Alemanha de maneira mais intensa. A hiperinflação, uma das facetas da crise, é ainda hoje analisada por economistas pelo seu aspecto quase caricatural. Chegaram a ser necessários bilhões de marcos para comprar um maço de cigarros. A desvalorização era tão alta, que muitos proprietários rurais deixaram de vender seus produtos, o que desencadeou uma onda de saques às propriedades. A escassez tornou-se recorrente nos mercados das grandes cidades, restando aos ricos um mercado negro cada vez maior. Enquanto a economia desmoronava, o número de desempregados aumentava e, com eles, os trabalhos informais, como a prostituição. Bergman vai buscar na crise econômica de 1923 (repetida em 1929) a corrosão da sociedade alemã, o aumento da criminalidade, mas, sobretudo, o fortalecimento do antissemitismo, que será, tempos depois, o principal pilar da ideologia nazista.
Antes que analisemos a crescente identificação do judeu como responsável pela crítica situação da Alemanha, voltemos à crise econômica. A análise da hiperinflação pelo aspecto estritamente econômico desconsidera a complexidade das relações políticas e sociais do período. A inflação começou durante a guerra, quando o governo alemão contraiu vários empréstimos para saldar os gastos nos campos de batalha. A vitória rápida não se consumando e a impossibilidade de se aumentar os impostos dos grandes capitalistas (os trabalhadores estavam exauridos pelos baixos salários da economia de guerra) exigiram a crescente impressão de dinheiro, ferramenta econômica também conhecida como imposto inflacionário. A política de emissões permaneceu, contudo, após o fim da guerra. Havia forte interesse por uma parte da população na sua continuidade. A inflação como fenômeno geral, mas principalmente como ocorreu na Alemanha, promove uma distribuição da renda na sociedade, dos assalariados e pequenos burgueses (que possuem poupança em dinheiro) para os capitalistas. Estes aproveitavam a crise inflacionária de diversas maneiras, já que realizavam seus lucros em dólar ou ouro, mas têm seus gastos com salários, impostos e dívidas quitados com o marco desvalorizado. Para muitos economistas, a inflação alemã de 1923, poderia ter sido minimizada, caso o governo estivesse disposto a usar as reservas em ouro e promovesse uma reforma tributária, o que certamente enfraqueceria a sua aliança com os capitalistas.
É interessante que, mesmo sendo uma produção americana (MGM), a crítica marxista do confronto de classes, muito pertinente para o período, não tenha ficado ausente do filme. Certo momento, Abel Rosemberg (David Carradine) entra em uma festa de ricaços em busca de bebida. A cena é um forte contraponto às desgraças apresentadas no restante do filme. Desempregado, alcoólatra e corroído por tormentos diversos, ele se depara com pessoas que riem incontrolavelmente e sem motivos aparentes. Pouco registrada pela historiografia, e menos ainda pelo cinema, Bergman mostra que a tragédia da crise encontra limite claro na sociedade, não atingindo a todos da mesma maneira.
Seria ingênuo imaginar que a crise alemã de 1923 tenha sido causada apenas pela ganância de um grupo social. Talvez para evitar uma divagação excessiva, o belíssimo roteiro de Bergman tenha optado por não desenvolver as diversas outras causas, muitas delas externas.
A Primeira Guerra Mundial, consagração dos confrontos entre as potências imperialistas, não foi capaz de dirimir os antagonismos nacionalistas vindos desde o final do século XIX. Como nação derrotada, a Alemanha foi obrigada a aceitar, no Tratado de Versalhes de 1919, uma rendição humilhante, onde reconhecia a responsabilidade pela guerra e arcava com indenizações draconianas. Estas coadunavam-se com os objetivos revanchistas da França, mas promoveram efeitos desastrosos à economia alemã. Por conta da incapacidade de cumprir com os pagamentos das indenizações, a França ocupa militarmente, em 1923, a região do Vale do Ruhr, importante fonte de carvão e minérios para a indústria da Alemanha (há rápida menção do fato no filme). Os efeitos econômicos e políticos da invasão são mais uma vez extremamente prejudiciais à recuperação alemã.
Ponto relevante para a interpretação do período é saber que as origens do ultranacionalismo alemão encontram-se ainda mais próximas das negociações do pós-guerra do que da própria crise econômica. Além das altas indenizações a que foi sujeita, pelo Tratado de Versalhes a Alemanha era desprovida de um oitavo de seu território (entre outras regiões, a Alsácia-Lorena retornava à França), o exército limitado a cem mil homens, o recrutamento proibido, extradição dos “criminosos de guerra”, ocupação da margem esquerda do Reno pelos Aliados por um período de 15 anos. Vários políticos recusaram o tratado, inclusive o sociólogo Max Weber, que tinha acompanhado a delegação a Versalhes. Não bastassem as duras condições de paz, sem dúvida, o pior ponto, já mencionado, era a parte do tratado que compreendia a responsabilização pelo conflito. Influenciados por ele, políticos conservadores irão desenvolver o famoso mito da “punhalada nas costas”, segundo o qual os militares, na iminência da vitória, teriam sido traídos pelos socialistas e judeus.
O antissemitismo e o anticomunismo não podem ser considerados de maneira separada. Isolados de outras esferas políticas, os judeus encontravam espaço junto aos partidos socialistas ou comunistas, contrários, ainda hoje, à discriminação de qualquer tipo. Logo, ambos foram identificados aos esforços pela paz (1917-18), à derrubada do Reich (1918) na Revolução Alemã e ao Tratado de Versalhes. Levando em consideração o conservadorismo e o militarismo da sociedade alemã, pouco enfraquecidos com a revolução dirigida pelos social-democratas (SPD), é possível entender o medo que a elite possuía em relação aos comunistas e à bolcheviquização do país. Durante o período entre as guerras mundiais (1919-1939), a sociedade alemã vai assistir a uma polarização das tendências políticas, entre a extrema esquerda (KPD) e a extrema direita (NSDAP), intensificada nos períodos de maior crise econômica (1923 e 1929-33). Ambos os partidos buscarão o apoio dos trabalhadores (ou dos desempregados), estes desiludidos com a inépcia da social-democracia. Enquanto o Partido Comunista Alemão (KPD) atingia votações cada vez mais expressivas (1928, 1930 e 1932), a classe média e a elite aproximavam-se ainda mais do nazismo, motivados por uma resposta eficaz à crise, às lutas nacionalistas, mas, sobretudo, à ameaça comunista e à transformação social.
Por fim, embora tenhamos feito vários comentários a respeito durante o texto, o antissemitismo. Os tristes resultados do Holocausto associaram-no, historicamente, à população alemã. O seu alcance, no entanto, foi muito mais amplo. Para não voltar muito no tempo, do final do século XIX à Segunda Guerra Mundial, o antissemitismo apresentava-se forte em praticamente toda a Europa. Sem entrar em detalhes, é possível lembrar do caso Dreyfuss (1894), escândalo que dividiu a opinião pública francesa, e a entrega de judeus aos nazistas por vários países europeus durante a guerra. Segundo Hannah Arendt, em “Origens do totalitarismo”, o judeu era o bode-espiatório perfeito para o direcionamento do ódio, o que foi feito de maneira eficaz pela propaganda nazista. As condições histórico-econômicas, como vimos, fizeram o resto.
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| Bergman durante as filmagens de Morangos Silvestres (1957) |
Referências:
1- LOUREIRO, Isabel, A Revolução Alemã.
2- SARAIVA, José Flávio Sombra (org.), História das Relações Internacionais Contemporâneas.
3- ARENDT, HANNAH, Origens do Totalitarismo.
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